Entrevista com: Sérgio e Heli
Banda: RETALHADOR
Por: Mara Vanessa Torres (Abril/2006)
Com as gravações de seu primeiro debut em andamento, o RETALHADOR vem fixando espaço e angariando respeito do público headbanger. Radicada no Piauí, a banda é formada por Sérgio Araújo (vocal), Heli Damasceno (guitarra), Eric Leonardo (guitarra), Décio Braga (baixo) e Del Braga (bateria). Em entrevista ao METAL DEVASTATION, o Retalhador discorre sobre seus projetos e trajetória.
1- Possuindo uma musicalidade essencialmente voltada para o Death/Thrash Metal, quais são as principais dificuldades enfrentadas pela banda, no que diz respeito à produção de seu debut?
Sérgio - A maior dificuldade – como não poderia deixar de ser – é o financiamento de todo o processo. Isso porque optamos por fazer uma gravação com a maior qualidade possível, conseqüentemente, mais cara e com um número menor de músicas, ao invés de gravar todas as músicas, mas sem o mesmo refino na gravação. Por conta disso boa parte do nosso repertório ficou de fora deste trabalho. Nós estamos gravando apenas um terço de nosso set list completo, e foi muito difícil chegar a um consenso sobre que músicas colocar na demo. A Empire of Hate tomou a frente por ser a primeira música da banda e uma das mais simples mas que sempre tem uma boa resposta do público. Pode-se dizer que foi uma faixa teste, e que o que virá depois será ainda mais trabalhado.
Heli - A falta de apoio financeiro realmente se torna a principal dificuldade, porque acabamos tendo que tirar tudo do nosso bolso, principalmente porque no Brasil as bandas de metal raramente recebem cachê. Aqui em Teresina se uma banda exige cachê pra tocar fica logo tachada de estrela pelos produtores locais, até por falta de consciência das próprias bandas, já que somos nós (as bandas) que enchem os bolsos deles.

2- Você acredita que o aparecimento de bandas que procuram basear seu som em material comercial, provocam o aparecimento de rótulos e "modinhas" que acabam manchando o próprio cenário metal?
Sérgio - Um amigo certa vez disse uma grande verdade sobre o assunto: o termo new metal deveria ser utilizado para caracterizar as bandas que estão inovando sem cair no clichê do modismo comercial, grupos que mostram novos caminhos e renovam o poder do Heavy Metal como fizeram Arch Enemy, Blood Red Throne, Kronos e inúmeras outras bandas atuais, porque isso sim é um Novo Metal. Já esse ‘pula-pula-rap-hip-hop-mão-no-saco’ nunca deveria ter metal no sobrenome. Como vc disse, são modas que causam certo desconforto, mas que em pouco tempo terão passado – como todas as outras – e poucos irão se lembrar da sua existência. Já o metal irá sempre preservar os seus grandes nomes na memória.

3- A faixa "Empire Of Hate" possui vocais fortes, riffs que flertam com o Thrash Metal e uma bateria esmagadora. Todo o track list do debut pretende seguir o mesmo padrão sonoro dessa faixa? O que se pode esperar do primeiro trabalho de estúdio do Retalhador?
Sérgio - Pode-se esperar uma continuação melhorada do que se vê nesta primeira música. Para o primeiro trabalho em estúdio nós estamos gravando mais três músicas que deverão vir acompanhadas de uma faixa bônus ao vivo, totalizando cinco faixas. Todas na linha thrash-death metal, com o mesmo peso e sem muita firula. Tudo muito brutal e direto do começo ao fim.
Heli - Como falou o Sérgio, as próximas músicas serão melhoradas, no que diz respeito à produção, e mantendo todo o peso e brutalidade característica da banda.

4- Fale um pouco sobre os shows realizados pela banda recentemente, e como está sendo a repercussão do som para o público banger.
Sérgio - Felizmente a aceitação do público durante os shows tem sido excelente, muita gente se matando nas rodas em todos os lugares onde temos tocado. E esse é o nosso maior estímulo, poder ver pelo entusiasmo do pessoal nos shows que estamos indo na direção certa, que o nosso som esta causando um impacto bem maior do que nós poderíamos imaginar e tanto o público quanto muitos músicos mais experientes do cenário tem nos dado incontáveis demonstrações de aprovação.

5- Em outubro de 2003, ocorreram várias divergências e desentendimentos relacionados à banda, resultando até mesmo no "fim das suas atividades". O Retalhador só volta à ativa em meados de 2005 (quase um ano e meio depois). O que realmente aconteceu?
Sérgio - Naquela época houveram vários desentendimentos sobre algumas questões técnicas e sobre as prioridades da banda. Infelizmente as divergências sobre estes assuntos tomaram uma dimensão maior do que realmente deveriam o que culminou com este “encerramento de atividades”. Mas algum tempo depois as diferenças foram superadas e a banda retomou suas atividades ainda mais coesa e determinada.
Heli - Até porque somos amigos de longa data e sempre saímos juntos, sempre fomos fãs de metal e a banda surgiu disso. Divergências acontecem com qualquer banda, não soubemos lidar com aquilo naquela época, mas felizmente isso é coisa do passado, e hoje estamos aí mais ativos do que nunca.

6- Tendo como influência diversas bandas nacionais, (tais como: Krisiun, antigo Sepultura, Claustrofobia, Korzus, Headhunter D.C. (Megahertz), de que forma você classificaria o cenário nacional? Existe maior organização e espaço para shows? O suporte para as bandas do underground está sendo satisfatório?
Sérgio - O cenário nacional está passando por uma renovação, algumas grandes bandas cedem cada vez mais seu espaço para novos grupos (ou não tão novos assim) em ascensão. O Underground está bem mais dinâmico do que foi a alguns anos atrás e favorece mais a divulgação de novos trabalhos, muito disso graças à Internet, que facilitou um maior intercambio entre bandas de todo o Brasil. Hoje nós conhecemos um sem número de grupos, tanto daqui quanto de fora, com trabalhos de altíssima qualidade mostrando que o nível esperado, mesmo para bandas iniciantes, está bem elevado. Quanto ao espaço e suporte, acho que também houveram melhoras significativas, mas ainda há muito o que evoluir, especialmente aqui no nosso estado.
Heli - O metal nacional vive uma grande fase, muitas bandas de enorme qualidade surgem todos os dias, e bandas mais antigas lançando excelentes trabalhos, apesar de ainda não existir um suporte tão bom como na Europa, por exemplo, onde tudo é muito mais fácil. Apesar disso, a raça das bandas nacionais supera tudo isso, e destaco a cena nordestina como a melhor do país, pelo grande nível que alcançaram mesmo com todas as dificuldades enfrentadas.

7- Na sua opinião, existe verdadeiramente uma espécie de "competição" entre as bandas? Ainda existem rixas, "sabotagem" de eventos e manifestações irracionais entre o público headbanger e bandas de diversos segmentos?
Sérgio – Cara, infelizmente ainda se ouve falar muito sobre este tipo de atitude. O ideal seria que houvesse uma competição leal, que visasse à superação através do empenho e o refino dos próprios músicos, mas o que se vê é que ainda tem muita gente usando de má fé para se colocar por cima da carne seca. Pessoas que pensam que sair por ai falando mal vai tornar o trabalho de alguém melhor ou pior do que ele realmente é. Não se tocaram ainda que essa atitude só divide e enfraquece e Heavy Metal como um todo.

8- O Retalhador pretende entrar em estúdio para gravar seu primeiro debut em meados do mês corrente. Como está sendo o processo para o lançamento desse trabalho?
Sérgio - Nós estamos dando os últimos retoques no repertório a ser gravado. Graças à Empire of Hate nós agora sabemos exatamente como deverão ser todas as etapas daqui por diante, tudo o que deve ser corrigido e o que deve ser mantido. Pra nossa sorte podemos contar com a ajuda de um pessoal com muita bagagem no assunto o que está sendo vital para a qualidade dessa gravação. É o caso do Ubaldo, guitarrista solo do Into Morphin, o João Borges, um dos melhores contra baixistas que conhecemos, e o próprio Márcio Biglie, que é o responsável por todo o processo da gravação e é reconhecidamente um guru no assunto, ou seja, gente de peso que esta dando uma turbinada no nosso material.

9- Em que se focalizam as letras da banda? Existe divisão na composição de letras e músicas?
Sérgio - As letras dessa primeira demo no geral flertam com a crítica social de uma maneira ou de outra. A maioria ataca algum aspecto podre da realidade política, cultural, ou religiosa, que são os melhores “fornecedores” de temas. Quanto à composição, pode-se dizer que todo mundo participa do processo; quando alguém chega com uma música nova (geralmente o Heli e o Delsom) todos escutam e depois cada um dá a sua contribuição, seja acrescentando algum novo riff, seja modificando uma base ou batida ou opinando sobre a colocação dos vocais. É um processo bem democrático.

10- O nome Retalhador remete à cultura nipônica? Há realmente alguma conexão?
Sérgio - A alcunha de Retalhador surgiu de uma grande coincidência. Procurávamos por um nome forte, simples, mas que mostrasse logo de cara a proposta da banda. E como o Metal é uma cultura mundial, achamos que deveria também dizer de onde nós viemos, portanto tinha que ser em português. Só que não aparecia nada que agradasse a todos ou que já não estivesse sendo utilizado. Daí, um belo dia, eu escuto esse nome no anime do Samurai X e penso: “achei”. Então vou falar pro resto da banda que encontrei um nome e antes que eu dissesse, um deles fala: “Ah cara, eu também pensei num nome, o que é que cês acham de Retalhador?” Ai todo mundo se olha com cara de porta. Quer dizer, todo mundo pensou no mesmo nome, ao mesmo tempo e ninguém sabia. Mas o nome é a nossa única referencia à cultura japonesa até o momento (o Battousai retalhador do anime é baseado num personagem real da história nipônica, um samurai chamado Gensai Kawakami que foi o mais temível assassino de sua era).

11- Quais as expectativas da banda em relação aos shows dos dias 22/04 (Espaço Trilhos - The) e 17/06 (Pedro II - PI)?
Sérgio - As melhores possíveis, o Trilhos tem nos recebido sempre muito bem, e as rodas que a galera abre por lá são infernais. Se depender do nível das bandas e do público crescente que tem comparecido no local, nos sabemos que com certeza a casa vai estar lotada. Também estamos muito ansiosos com relação ao show em Pedro II que foi um lugar que nos recebeu super bem e, literalmente, com um belo público, além disso, pelo que os organizadores do show estão dizendo, vai ser um puta evento com uma dezena de bandas de Metal. E será exatamente durante o Festival de Inverno da cidade, que vai estar lotada. Então esses shows prometem.
Heli - O show em Pedro II promete muito, pelo grande apoio que temos recebido de pessoas de lá desde que tocamos naquela cidade em Julho do ano passado.

12- Espaço aberto para últimas declarações.
Sérgio - Bom pessoal, daqui a pouco vai estar saindo o nosso primeiro trabalho de estúdio e nós esperamos que corresponda à expectativa do público que já conhece o nosso som. Mas pra quem não nos viu ainda, se ao escutar a gravação vc gostar do som, pode ter certeza, ao vivo a porrada é bem maior. Por fim nós gostaríamos de agradecer ao Metal Devastation e à Mara pelo espaço aberto. Cara, nós estamos muito honrados com o convite e estaremos sempre à disposição do seu pessoal para o que for preciso. Valeu mesmo!
Heli - E quem quiser dar uma conferida na faixa Empire of Hate, acessem www.myspace.com/retalhadorband